EMBOLIA PULMONAR POR SILICONE

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Caso clínico enviado para este blog por Dr André Bezerra, pneumologista

CASO CLÍNICO

 

Paciente de 24 anos, solteira, natural de São Paulo, deu entrada no pronto-socorro com queixa de dispneia iniciada há 2 dias, com piora rapidamente progressiva, no momento presente ao repouso. Refere tosse seca e um episódio febril isolado associado ao quadro.  Antecedentes: HIV em uso regular de TARV há 2 anos, mamoplatia há 4 anos, aplicação de silicone líquido em glúteos e coxa há 4 dias; tabagismo (5 maços-ano)

Exame Físico: taquipneica, PA:109×63 mmHg FC:120 bpm f: 42 irpm SpO2: 91% (aa). Exame segmentar sem alteração.

Exames laboratoriais: Hb: 13,6; leuco: 8840 (735Neut; 1% eos; 18% linf); Ur: 19; Cr: 0,4. Gasometria arterial: pH: 7,445; PCO2: 27; PO2: 56; HCO3: 18,6; SpO2: 91%

Evolução da paciente: Ausência de resposta a VNI, com necessidade de intubação, ventilada com parâmetros elevados. Hb de controle 2 dias após VM à 7,1. Broncoscopia com sinais de sangramento recente difusamente, LBA sem agentes infecciosos (não foi realizado citologia diferencial).

Tratada com corticoide, antibioticoterapia empírica e medidas de suporte, com melhora clínica gradual, extubada após 15 dias.

DISCUSSÃO

EMBOLIA PULMONAR POR SILICONE LÍQUIDO, COM HEMORRAGIA ALVEOLAR

O silicone (Polidimetilsiloxane) é um polímero com mínima reação tecidual, alto grau de estabilidade térmica e extremamente seguro para usos estéticos na maioria dos casos. Porém o uso clandestino do silicone líquido pode estar associado com grande morbidade, gerando hipopigmentação de pele, absecessos locais, mastite, hepatite granulomatosa e embolia pulmonar.

Seu uso em forma líquida é mais comum em masculinos transexuais, porém também há relato de uso em mulheres, principalmente em parede vaginal.

A embolia pulmonar por silicone é um evento raro, porém extremamente grave, caracterizado por acometimento de pequena vasculatura pulmonar (capilares), não seno portanto identificado em exames de imagem. A embolia capilar gera reação inflamatória local, com aumento de permeabilidade vascular e migração celular (principalmente neutrófilos, macrófagos e eosinófilos). Histologicamente, há presença de silicone intracelular nos capilares, associado com gotículas livres no LBA ou no interstício pulmonar (com ou sem hemorragia alveolar).

O silicone pode alcançar a circulação pulmonar por migração devido a alta pressão do líquido injetado (maior risco de acordo com o volume injetado), infusão intravascular direta ou após massagem local para acomodação do conteúdo.

Apresenta-se clinicamente, principalmente como Insuficiência respiratória aguda com hipoxemia severa, associado ou não a sintomas neurológicos (embolia cerebral), iniciados em até 72h após a aplicação do silicone. As alterações clássicas de imagem são infiltrado difuso com espessamento septal e opacidades em vidro fosco. Consolidações podem ser encontradas também.

Apresentações subaguda podem ocorrer após meses da aplicação, mas são menos graves, com dispneia presente aos grandes esforços e discreta alteração do interstício pulmonar. Outra forma de apresentação atípica é a tardia, caracterizada por Insuficiência respiratória aguda após trauma no local de implante do silicone., cursando com a mesma gravidade da apresentação aguda.

Diagnóstico é clínico-radiológico, reforçado pelas alterações de LBA e biopsia transbrônquica.

Tratamento é de suporte. O uso do corticoide é questionável, reservado para os casos mais graves. O prognóstico é ruim, alcançando mortalidade em até 3—40% em algumas séries.

 

 

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