A Forma da Água; o filme

 

Unknown

 

 

Comparo um filme narrativo a uma vida. Sim porque todo filme conta uma historia, e toda vida vivida daria um filme. Tem pessoas cuja vida daria um filme de terror. Sacrificios em cima de sacrifícios. Ou uma comedia, um romance, um drama. Claro, como toda vida é longa temos um fio condutor (o tema principal ou pano de fundo) e vários temas secundários que seriam subtemas que permeiam a historia, uma vez que uma vida é feita de outras historias no seu curso, como também no seu entorno; por vezes um filme também pode contar varias historias paralelas ( gosto desses) que eventualmente se tocam em alguns pontos, ou apresentando um mosaico dos dramas humanos. Assim uma vida pode ter um bom protagonista, acontecer num bom cenário, e ter uma boa trilha sonora. Ou não. Canções podem tocar na hora errada, ou simplesmente pensamos “ poxa, bem que naquele momento poderia ter sido outra canção …” um filme pode também ser assim propositadamente quando ele quer mostrar isto.

Por trás de um bom filme temos um bom diretor. Assim somos também o diretor de nossas vidas, escolhendo consciente ou inconscientemente as nossas canções, o nosso cenário, os nossos atores coadjuvantes, e principalmente o nosso roteiro. Nada mais interessante pode acontecer quando todas estas coisas estão juntas em perfeita harmonia. O filme é coroado como uma bela vida bem vivida!

Mas filmes, diferente da vida que só tem uma de cada vez, pode ter vários ao longo da vida; o diretor sempre deixa sua assinatura pessoal, de alguma forma. Há aqueles cuja assinatura é mais marcante ( Spilberg, Tarantino, Almodovar, Woody Allan…) de forma que vc vai ver o filme porque gosta dos filmes daquele diretor, não importando muito a temática.

Acho que isso aconteceu um pouco com “ A forma da agua”. Não conheço muito Guilhermo Del Toro, o único filme que assisti dele foi O Labirinto do Fauno, que gostei bastante. Entao fui ver A Forma da Agua, 13 indicaçoes ao Oscar, claro, pensei, vai ser um ótimo filme! A começar pelo titulo, belíssimo. Qual é a forma da agua?

Mas o que vi foi um monte de fórmulas. É como se alguém me entregasse o ouro logo no arriar das malas. Sem magia, sem profundidade, sem me levar a nenhuma descoberta. Tudo esta posto desde o inicio; uma protagonista cuja vida é um pouco de Macabeia ( A Hora da Estrela) pela sua vida linear, mas com alguns elementos transgressores e : ela sempre chega atrasada e a amiga sempre guarda lugar na fila para ela bater o ponto. E isso nos parece normal e até engraçado quando as outras reclamam na fila; ela parece ser uma solitária aos nossos olhos, mas longe disso, ela não é solitária. É muda, mas é única que se comunica com todos quando quer. É a única que inclusive se comunica com a criatura da agua. Ela tem uma rotina de vida e não se sente solitária, na verdade é a única que faz o que quer, até mandar o chefe domar no cú. Diariamente deita na banheira e se masturba. Dança com seu amigo gay, fideliza com sua amiga negra.

Aí vem o entorno. Personagens lugar comum de filme americano. Vamos começar pelos excluídos: amigo gay, que na sua infinita solidão frequenta uma lanchonete e se obriga a comer uma torta de limao horrorosa somente para dar em cima do funcionário, um jovem tipicamente americano que não ta nem aí para ele. Termina sendo mais uma vez excluído pelo jovem branco bonito. Chefe mau, adaptado ao esquemão do sistema burocrático, cumprindo seu destino traçado pela sociedade, família modelo, trepada ruim. Batendo ponto na vida. Aquele livrinho de auto ajuda na mão cujos dedos estão caindo?? Me poupe!!!!

Espião russo, tem coisa mais obvia? Não vou nem comentar…

Negra pobre, boa pessoa, aprisionada num casamento falido, adaptada a vidinha que “Deus” lhe deu.

Cientista consciente, mas aprisionado pela profissão que cola nele como uma roupa ( médicos são assim as vezes)… General de alto escalão fazendo de tudo pelo bem maior….

Mas as pessoas pobres não são burras. São aquelas que podem fazer a diferença: burlam com simplicidade o sistema de segurança do local de máxima segurança do governo, simplesmente virando a câmara e encontrando um ponto cego para poderem fumar e conversar sem ser vistas.

Mas, o que o filme me trouxe de novo? Absolutamente nada. Não há nenhum encanto, nenhum roteiro, nada cresce. Apenas mostra o obvio, as injustiças sociais, a linearidade dos personagens que chega a cansar, a falta de proposito real de vida. Ele não evolui para nenhum lugar, cria um cenário fantasioso de um encontro no banheiro que se enche de agua como um aquario para que mais uma vez a única pessoa não solitária e que faz o que quer possa realizar sua fantasia de amor e salvar todo este entorno de uma vida mais que obvia. Assim ela faz vazar agua para o teatro abaixo de si, o teatro das nossas vidas que em ultima analise é o filme todo, como se dissesse: olha , aqui tem um pouco de fantasia!! ( Não ´o amor é possível´, como vi em algumas interpretações).

Não é um filme de possibilidades. É um filme de impossibilidades, o tempo todo. É um filme que denuncia o obvio, o mais que obvio.

E que termina de forma obvia: tudo nagua! Tudo por agua abaixo!

Ou, em outra possibilidade menos funesta: É preciso morrer para poder viver.

Fiz toda aquela abordagem inicial para dizer que embora os atores sejam ótimos, a trilha sonora seja ótima, o roteiro é fraco. E que com um roteiro fraco não há possiblidade de filme bom. Mas meu tiro saiu pela culatra, confesso humildemente… porque é um roteiro que enfia a faca em você e roda devagarinho….

Minha amiga Ana Marice, muito obrigada! Você me fez um favor porque agora eu posso ver o que me irritou tanto no filme. Foi na verdade esta verdade nua e crua de uma sociedade em decadencia. Ah! e o cenário da década de 20? Denuncia que nada, nada mudou! Ainda somos os mesmos…

Somente agora quando junto os pontinhos nesta escrita é que posso ver o horror deste filme que não é ruim na verdade, mas dói. e dói muito. Como eu disse mas agora em outro contexto, é um filme horroroso, dos mais cruéis que já vi.

Nila Costa

01/03/2018

FacebookTwitterGoogle+