Depressão: uma visão mais ampla.

Texto do médico e escritor  Márcio Leite

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Vejo a foto de um padre famoso e fico espantado. Então me pergunto: como pode um homem que fala em Deus o tempo todo e insufla ânimo nas pessoas, afundar na Depressão? Bom, a questão do padre deve ser respeitada e faço votos que se recupere logo, mas, como celebridade, ele suscita a questão: Depressão.

A medicina agora estabelece a Depressão como uma entidade clínica, ou seja, uma doença. Claro, esse é o comportamento dos pesquisadores médicos, funcionam conforme determinado modelo e método, têm o hábito de rotular e classificar os fenômenos segundo a nossa Nosologia. Então encontram alterações bioquímicas, fatores faltantes ou excessivos, modificações estruturais, anatomopatológicas, etc. No final, na impossibilidade de ir às causas primárias, satisfazem-se em classificar as consequências.

Depressão é desconexão, é perda de sentido de unidade, de ligação com todos os outros seres e coisas (mundo). Depressão é mergulho profundo e excessivo na individualidade, na particularidade, perdendo-se assim a noção de pertinência a um corpo coletivo maior. Depressão é sensação de isolamento, de solidão existencial. É estancamento das correntes fluídicas que varrem o Universo e nos tomam, nos perpassam num sopro de vida e ânimo (libertação). É a perda da segurança de que somos parte de alguma coisa grande, de um plano maior, algo que se chama Deus ou tenha qualquer outro nome, não importa.

Deprimir-se é encolher-se, esvaziar-se, subtrair-se. O deprimido, sem querer, trabalha contra si, exaure-se. Claro que todos os esforços de resgate são válidos, incluindo os antidepressivos, a psicoterapia, etc. Importante levar o deprimido para além de sua redoma de sofrimento, ajudando-o a compartilhar a fé da existência, a alegria da coparticipação. Conduzi-lo para fora da prisão de impotência em que se meteu por ingenuidade, infantilidade consciencial ou descrença. A tristeza é algo inerente ao percurso, momentânea, mas temos as reservas de energia para virar o jogo. Já a Depressão é mau presságio, condenação; incapacidade de acreditar nos mitos, nos símbolos, nas imagens do Inconsciente do qual todos, sem exceção, fazemos parte. A Depressão é um fenômeno anti-religioso, é um desligare ao invés de religare. Os místicos e monges, doutores em Consciência, dizem: somos UM.

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Marcio Leite

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