Envelhecer e morrer (Experiências necessárias)

Texto do médico e escritor  Marcio Ribeiro Leite.

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Tomando como ponto de partida este excerto do romance “O Momento Mágico”, que aborda a questão da morte no hospital, portanto, distante do ambiente familiar, do aconchego dos entes queridos, podemos inferir o absurdo nível de angústia gerado por uma situação como essa. Além de questões idiossincrásicas – uma vez que a morte advém a cada um de nós em momentos distintos de nosso desenvolvimento pessoal e de maturação de tal questão – há a sobrecarga imposta por nossa (social) visão imatura e prepotente do fenômeno. Portanto, há o componente interno ou pessoal, e o componente externo ou não pessoal, relativo ao ambiente ou cultura, como motores dessa angústia. Claro, ambos estão ligados, são interdependentes, mas, absolutamente, não são congruentes.

O Ego médico, ampliado no sentido de abarcar toda a equipe de saúde, é cunhado com a determinação de ver na morte o sinal inequívoco de derrota de nossos dispositivos artificiais de manutenção da vida. Antes da morte, a própria velhice, embora inexorável, já é vista, em uma cultura onde predominam valores da juventude, como decadência e inadequação. O mundo, todo projetado para os arroubos, movimento e ritmo dos jovens, passa a ser um local não adaptado aos velhos, com sua característica cadência. Isso tão somente contribui para a sensação de inadequação e alienação dos idosos, que se acham extemporâneos, anacrônicos, com o avançar da idade e a perda progressiva de seus referenciais de mundo e época. As mudanças em seu entorno, a perda dos amigos, parentes e amores mais significativos, a perda de hábitos e condicionamentos que delineavam uma forma particular de existir, forçam o idoso a uma readaptação difícil e quase nunca executada a contento. Mais e mais ele vai percebendo a desconfiguração de seu habitat, de suas referências existenciais, o que em muito contribui para a sensação de vazio, de alheamento, dos últimos anos.

O idoso forçosamente e com sofrimento vai descolando-se da vida, desmotivando-se, mais ou menos ciente de que esse é um processo inevitável e que ele não pode controlar. Muitas vezes há patéticas tentativas de se permanecer jovem, “ligado”, “por dentro”, “in”, como diriam os jovens em suas mutáveis gírias. Numa visão comum e tingida de preconceitos silenciosos, envelhecer é falência, decrepitude, prenúncio de morte. No mais das vezes a velhice está associada a dores, limitação e doenças. Hoje sabemos que não necessariamente é assim, há alternativas, mas fatalmente resvalamos para o ideário popular que ainda pinta o envelhecer com tons sombrios. O idoso, portanto, sente-se em situação de desvantagem, de desmerecimento, de desconstrução, o que, por si só, dificulta a caminhada. Torna-se irresoluto, tímido, vacilante, pois, ciente de sua fraqueza. E já que ossos e músculos não lhe correspondem às expectativas, deve restar-lhe a lucidez, a maturidade, o equilíbrio, o intelecto.

Aos homens e mulheres mais maduros cabem grandes obras de peso intelectual. Há que se viver uma longa vida para atingir os “mistérios”. Refiro-me à sabedoria da existência disponível aos que percorreram longos caminhos. Refiro-me ao resgate do simbolismo do arquétipo do velho sábio, centrado, conselheiro, que tem as respostas para a ânsia da juventude, conhecedor do “elixir da longa vida”, se não da vida física e destrutível, daquela outra verdadeira e imortal. Devemos cooperar para atrair para o nosso pool de crenças e experiências culturais, a vivência do velho sábio, à moda de muitas culturas arcaicas, mais intuitivas e espiritualizadas. Sem abominar o mundo à nossa volta ou as inequívocas conquistas materiais, sem a necessidade de meditar por anos em uma caverna no Himalaia, podemos “despertar” para a multifacetada realidade interior, com muitos personagens ávidos de vivificação e experiências por realizar. Um mundo vastíssimo, tão real quanto o universo ponderável à nossa volta, e muito mais acessível aos idosos, ou a qualquer um que se disponha a essa comunicação com o Self (Alma).

Para essa aventurosa descida ao mundo interior não são necessários ossos e músculos em plena forma, é factível a qualquer um, incluindo velhos e enfermos. Cada qual pode realizar essa jornada a seu modo e a seu tempo, numa tentativa de reencontro consigo mesmo, de revitalização das verdades essenciais da vida, em contraste com as ilusões criadas pelo Ego ao longo da estrada.

Envelhecer e morrer, experiências inevitáveis, não passam de curso preparatório e adestramento para nova percepção de existir, nova forma de viver, dentro de conceito simbólico, muito mais amplo e satisfatório do que a mera concepção biológica de vida. Não importam as nossas diferentes ideologias, filosofias ou religião, todos podemos atingir conceitos mais amplos do significado da vida e de sua contrapartida, a morte. É possível, pois, se não criar, recriar uma imagem menos distorcida e mais favorável do envelhecer, ligando-a a ricas e respeitáveis vivências, retirando de sobre ela o fardo das associações pejorativas.

É possível também desvincular o envelhecer da idéia de decadência, agregando o conceito de transformação, transmutação, adaptação, a uma noção de vida muito mais vasta, ainda que subjetiva e simbólica. Ao ter reverência pelo passado, o idoso segue em direção ao futuro, mais confiante e seguro de si, compreende que passa por experiência que transcende sua realidade particular. Ao mesmo tempo, segue desvelando sua singularidade. Sem a visão míope que envolve a morte, denominador final comum do envelhecer, esta não deverá ser corolário de dores e sofrimento, mas de júbilo pela sensação de missão cumprida e satisfação pela obra realizada, ainda que sempre parcial.

A morte configura-se, portanto, como uma etapa a mais na escalada da vida, não como seu contraponto, nem como seu inexorável término. Envelhecer, morrer, como em toda e qualquer espécie animal ou vegetal, até mesmo como em qualquer material físico-quimicamente constituído, são etapas vitais. O homem que chora a morte de um ente querido, por admiti-lo perdido em definitivo, traz-me à mente a imagem da criança pequena que se desespera ao ver a mãe sair para o trabalho. Fazendo referência a James Hillman, idealizador da Psicologia Arquetípica, infiro que o arquétipo do jovem e do velho (Puer e Senex) sejam exatamente o mesmo, em diferentes polaridades, assim como, em essência, somos sempre a mesma pessoa, quer estejamos situados em um pólo ou outro da vida, ou seja, quer estejamos em uma extremidade ou outra do arquétipo, buscando aqui apenas o entendimento com uma metáfora espacial. A jornada em direção ao futuro desconhecido deve ser tranqüila e despojada, quando entendida não como perda de juventude e vigor, mas como ganho de experiência, vivência e despertar de sensibilidades.

O caminho é menos íngreme quando assumimos o envelhecer (e morrer) como uma experiência transpessoal, absolutamente necessária e lógica, algo, como não poderia deixar de ser, plenamente inserido na engenhosidade e propósitos da Natureza, ainda que nem sempre inteligíveis sob os limites de nossa tridimensionalidade. O envelhecer, muito além de simples contar de dias em direção à morte, vivência de Chronos (tempo cronológico, quantitativo), pode e deve tornar-se uma vivência Kairós (tempo qualitativo, tempo oportuno). Sem referência à mitologia, quero dizer que a vida pode ter uma relação difícil com o tempo (Chronos), em que nos posicionamos fora do momento presente, do aqui-e-agora, estamos em conflito com ele; ou podemos fluir com o tempo, ser o próprio tempo, fundir-nos nele, o que torna a contagem dos dias absolutamente desnecessária e a ação dele sobre nós algo perfeitamente aceitável e indiscutível, portanto, totalmente integrada à nossa natureza.

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Recomendo a leitura do livro “O Momento Mágico” de Marcio Ribeiro Leite.

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Fratura Patológica.

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Mulher, 52 anos, admitida com queixa de dor óssea, principalmente em ombro e MSD. Sem história de trauma.

Sem patologias prévias, não faz uso de medicação.

Suspeitas diagnósticas?

Quais exames complementares?

 

Atualização 27/10/2014

Paciente com fratura patológica e lesões líticas em úmero. Essa paciente também apresentou lesões líticas em crânio e bacia com outra fatura em fêmur.

Devemos investigar neoplasias, tanto primárias de ósseo que  se apresentam com lesão lítica, neoplasia hematológicas como mieloma múltiplo( mais comum que se apresenta com dor óssea e lesões líticas) além de tumores sólidos que dão metástase para ósseo com leão lítica. Os exames devem procurar mieloma múltiplo, como imunoeletroforese de proteínas( avaliar pico monoclonal) e mielograma( plasmocitose na medula); e exames de imagem a procura do sítio primário daqueles mais frequentes que dão  metástase para ósso; não esquecer das neoplasias primárias de osso.

Aqui uma tabela com as condições que apresenta dor óssea e o padrão da lesão, se lítica ou blástica.

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As lesões ósseas líticas possuem um característica “roído de traça” que é causada pela justaposição de osso degradada e não afetado. O processo de degradação óssea é mediada pela osteoclastos, que são activadas por tais moléculas como interleucina-6, interleucina-3, interleucina-7, o receptor de ativador do fator nuclear kB ligante (RANKL), proteína inflamatória de macrófagos 1α (MIP-1α), e o PTHrP.

As lesões ósseas blásticas refletem aumento da formação óssea, um processo mediado pelo aumento da atividade dos osteoblastos. Moléculas que têm sido implicadas neste processo incluem endotelina-1, factor de crescimento derivado de plaquetas (PDGF), proteínas morfogénicas do osso e PSA

 

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Mulher, 80 anos, com tosse há 4 meses.

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Paciente feminina 80 anos com história de tosse crônica há 4 meses e dispnéia. admitida no hospital para esclarecimento diagnostico.

  1. Quais os dados de história clínicas seriam mais relevantes na investigação desta paciente? O que devemos perguntar a paciente?
  2. Quais achados esperados no exame físico que nos ajudaria no raciocínio clínico?
  3. Quais exames complementares importantes devem ser solicitados?

 

OBS- Desculpem, a imagem esta invertida, paciente não tem dextrocardia. 

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É Possível Um Diagnóstico Sem Exame Complementar?

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Imagem enviada para este blog por Dra Nanci Silva- Infectologista

O único dado da história clínica;  paciente transplantado renal.

 

8/9/2014 – DIAGNÓSTICO – Mycobacteruim heamophilum. 

A pergunta do título foi para provocar a discussão sobre diagnóstico em doenças infecciosas. Já é difícil o diagnóstico de infeção em pacientes imunocompetentes, quanto mais em pacientes com imunodeficiência. A demostração do agente etiológico é muito importante, em qualquer doença infecciosa, para início da terapêutica ideal. Porém isso nem sempre é possível,  na prática clínica diária iniciamos de forma empírica o tratamento, o que muitas vezes pode resolver, mas em determinadas situações não podemos perder tempo e o diagnóstico com exame complementar é fundamental.

Deixo dois artigos de revisão sobre  infeção por Mycobacteruim heamophilum.

M haemophilum

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