A Arte de Cuidar.

Texto de  Nila Maria Costa.quiron

(A palavra cuidar tem sua origem no Latim (Cogitare) que significa imaginar, cogitar, meditar; aplicar a atenção, o pensamento, a imaginação)

Não sei o que poderia dizer a alunos de medicina… Na verdade eu mesma muito me questionei antes, durante, e de certa forma me questiono ate hoje acerca do significado da profissão que, não sem sacrifícios, escolhi abraçar. O fato é que muitas vezes na vida fazemos coisas e somente bem depois, mas bem depois mesmo, é que nos damos conta da conjunção de fatores que jaziam por detrás das nossas decisões supostamente “livres”. (para maiores detalhes sobre este tema sugiro a leitura do fascinante e inquietante livro Subliminar de Leonard Mlodinow).  Então fica já, pra inicio de conversa, lançada uma questão: o que em mim me levou a “escolher” esta profissão?

Cuidar explicita uma relação dual: aquele que cuida e aquele que recebe cuidados.  Alguém que precisa e um outro que está à serviço. Mas sabemos que esta relação, embora pareça desigual a primeira vista, concede às partes envolvidas um movimento, algo que se encontra entre elas, na relação entre o dar e o receber. Encontramos no outro um Eu. Um Eu que está em relação espectral  a mim mesmo.

O mito de Quíron conta a historia de um centauro,  filho de Cronos (Saturno) com a ninfa Filira. Diferente dos outros centauros que eram beberrões, fanfarrões e indisciplinados, Quíron se destacava por sua bondade, inteligência e habilidade na arte de curar. Ocorre que numa festa onde rolou uma briga, Quíron é ferido na perna (ops… perna não,  porque centauro não tem perna…), digo, na coxa, por uma flecha envenenada; uma ferida que não sara jamais e a partir daí começa sua tragédia, pois como filho de titã é imortal, condenado a viver para sempre com dores terríveis e incessantes.

O que há em nós que nos identifica com isto tudo? Como podemos re-conhecer a nós mesmos na dor do outro? E principalmente, aonde isto nos leva?

A tragédia é uma coisa interessante… quando a dor de uma tragédia chega ao seu extremo algo de muito diferente tende a ocorrer, tal como uma corda que se rompe ou um elástico que se afrouxa. No extremo está o rompimento de uma função. Esta ruptura pode se dar de diversas maneiras, e sempre será uma morte, real ou simbólica.  Lembrança  de que somos todos mortais e que nada pode ser assim tão terrível porque no fim  “somos pó e ao pó voltaremos”.  Ainda que possamos pensar que este pó seja o pó das estrelas …somos estrelares e as estrelas voltaremos…

Mas o riso também pode ser a morte de uma tragédia… Vamos  abrir um parênteses  para falar um pouco da importância do riso, do bom humor. Humor vem de humores:   líquidos , substâncias básicas que compõem  o corpo humano e quando em  equilíbrio determinam um bom estado de  saúde.  Assim filósofos e físicos das antigas civilizações Grega e Romana  acreditavam. Por isto o riso é tão importante, ele está na polaridade, e é uma ótima opção para situações de muita tensão… (não me refiro aqui ao riso histérico e disfuncional, mas o riso legítimo que “desmonta” o nosso corpo da rigidez, que emerge de dentro de nós como um bálsamo para as nossas tensões), enfim, o riso que nos relembra (lembrar em inglês é remember – que significa  re-membrar) e coloca nosso corpo em  ordem.

Voltando a Quíron, Héracles, que lançou a flecha, consegue um acordo com Zeus: troca a imortalidade de Quiron pela vida de Prometeu. Quíron pode morrer tranquilamente enfim liberto do seu sofrimento.

O curador se percebe ferido e precisa resgatar sua mortalidade. Onde isto se encontra nas relações que estabelecemos? Onde está a minha dor? E o meu dom?

É neste espaço de relação entre o curador/curando no qual me vejo também pertencente, este espaço onde algo se transforma e me conduz gentilmente (às vezes não tão gentilmente..) a minha própria dor.

Talvez estar neste espaço nos permita perceber: a jornada de cura (também) é nossa. E às vezes é preciso morrer. E nascer. E morrer novamente. E transformar. E morrer. E nascer…..

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